Violência e Psicologia Jurídica: O Que Você Precisa Saber

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A psicologia jurídica estuda a violência a partir de uma perspectiva que une o conhecimento psicológico às demandas do sistema de justiça. Seu objetivo é compreender os comportamentos humanos envolvidos em situações de violência, avaliar os impactos sobre as vítimas e oferecer subsídios técnicos para que decisões judiciais sejam mais justas e fundamentadas.

Esse campo se torna especialmente relevante quando os processos legais envolvem violência doméstica, abuso infantil, disputas de guarda ou qualquer situação em que o sofrimento psicológico precise ser mensurado e comunicado ao sistema de justiça com rigor científico.

Para profissionais do Direito, vítimas, famílias e operadores do sistema judiciário, entender como a psicologia jurídica aborda a violência é fundamental. A análise psicológica forense pode determinar a credibilidade de relatos, identificar sequelas emocionais, avaliar riscos e orientar intervenções que vão muito além do que documentos processuais sozinhos conseguem revelar.

Neste post, você encontra uma visão abrangente sobre o tema, desde os fundamentos da área até as formas de atuação do psicólogo jurídico em casos que envolvem violência.

O que é psicologia jurídica e qual seu campo de atuação?

A psicologia jurídica é o ramo da psicologia que atua na interface entre o comportamento humano e o sistema legal. Ela aplica métodos, teorias e conhecimentos psicológicos para responder a questões que surgem dentro de processos judiciais, administrativos ou extrajudiciais.

Seu campo de atuação é amplo e inclui:

  • Avaliação psicológica de partes envolvidas em litígios
  • Elaboração de laudos, pareceres e relatórios técnicos para o Judiciário
  • Atendimento a vítimas de violência em contextos institucionais
  • Assessoria técnica a advogados e magistrados
  • Participação em audiências como perito ou assistente técnico
  • Atuação em políticas públicas de prevenção à violência

O psicólogo jurídico pode atuar em tribunais, delegacias, varas de família, Ministério Público, centros de referência de assistência social e organizações não governamentais. A presença desse profissional é cada vez mais reconhecida como essencial para a qualidade das decisões judiciais, sobretudo quando envolvem populações vulneráveis.

Nos casos de violência, especificamente, o psicólogo jurídico é chamado a responder perguntas que o Direito, por si só, não consegue responder com precisão: qual foi o impacto emocional sofrido pela vítima? O relato apresentado é coerente com os padrões de revelação de abuso? Há indícios de manipulação ou instrumentalização do discurso?

Como a psicologia jurídica se diferencia da psicologia clínica?

A diferença central está na finalidade e no destinatário do trabalho. Na psicologia clínica, o profissional atua com foco no bem-estar e na saúde mental do paciente. O sigilo é absoluto e o vínculo terapêutico é o principal instrumento de trabalho.

Na psicologia jurídica, o destinatário do trabalho técnico é o sistema de justiça. O psicólogo produz documentos que servirão como prova ou subsídio em processos legais. Isso implica uma postura avaliativa e não terapêutica, além de um conjunto de responsabilidades éticas distintas.

Outras diferenças importantes incluem:

  • Objetividade técnica: o psicólogo jurídico deve manter neutralidade, mesmo diante de situações emocionalmente intensas
  • Documentação formal: o resultado do trabalho é um documento técnico com valor probatório, como laudos e pareceres
  • Contexto de avaliação: a avaliação ocorre em ambiente jurídico, muitas vezes com partes que não buscaram voluntariamente o atendimento
  • Limitações do sigilo: informações relevantes para o processo podem precisar ser comunicadas ao juiz ou ao Ministério Público

Para quem precisa de suporte emocional em situações de violência, o atendimento clínico é o caminho. Para quem precisa de uma análise técnica com valor jurídico, o psicólogo jurídico é o profissional adequado. Esses papéis não devem se misturar no mesmo caso.

Quais leis amparam a atuação do psicólogo jurídico no Brasil?

A atuação do psicólogo no contexto jurídico brasileiro é respaldada por um conjunto de normas legais e regulamentações do Conselho Federal de Psicologia (CFP).

Entre as principais referências legais, destacam-se:

  • Lei nº 4.119/1962: regulamenta a profissão de psicólogo no Brasil e define as atribuições do profissional
  • Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006): prevê a atuação de psicólogos nas equipes multidisciplinares dos Juizados de Violência Doméstica
  • Lei nº 13.431/2017: estabelece o sistema de garantia de direitos de crianças e adolescentes vítimas de violência e regulamenta o depoimento especial, com participação direta do psicólogo
  • Código de Processo Civil (Lei nº 13.105/2015): prevê a figura do perito e do assistente técnico, funções que o psicólogo pode exercer
  • Resoluções do CFP: diversas resoluções regulamentam a elaboração de documentos psicológicos, avaliação psicológica e atuação em contextos de violência

Além disso, o CFP publica referências técnicas específicas para orientar a prática em áreas como violência doméstica, avaliação de crianças e adolescentes em contexto forense e atuação em varas de família. Conhecer esse arcabouço normativo é indispensável para qualquer profissional que atue na área.

Como a psicologia jurídica estuda a violência?

O estudo da violência na psicologia jurídica combina teoria, pesquisa empírica e prática forense. A violência não é analisada apenas como um evento isolado, mas como um fenômeno complexo que envolve dinâmicas relacionais, contextos sociais, histórias individuais e impactos psicológicos mensuráveis.

Do ponto de vista metodológico, a psicologia jurídica utiliza instrumentos como entrevistas estruturadas, protocolos de avaliação de risco, análise de documentos processuais, observação de comportamento e testes psicológicos validados. Cada ferramenta tem uma finalidade específica e deve ser aplicada dentro dos padrões éticos e técnicos da profissão.

O estudo da violência nesse campo também dialoga com a criminologia, a vitimologia, o direito penal e as políticas públicas de segurança. Esse caráter interdisciplinar é o que permite ao psicólogo jurídico contribuir de forma efetiva tanto na esfera judicial quanto na formulação de estratégias preventivas.

Uma das contribuições mais relevantes da área é a análise das consequências psicológicas da violência sobre as vítimas, o que subsidia decisões sobre medidas protetivas, indenizações por danos morais, regulamentação de guarda e outras demandas do Judiciário. Entender como o trauma se manifesta, como afeta o comportamento e como pode ser documentado é parte central do trabalho do psicólogo forense.

Quais são os principais tipos de violência analisados pela psicologia jurídica?

A psicologia jurídica analisa diferentes manifestações de violência, cada uma com características próprias que exigem abordagens técnicas específicas.

Os tipos mais frequentemente tratados incluem:

  • Violência doméstica e familiar: engloba agressões físicas, psicológicas, sexuais, patrimoniais e morais no contexto das relações íntimas ou familiares
  • Violência contra crianças e adolescentes: inclui abuso físico, sexual, negligência e violência psicológica, muitas vezes revelada no contexto de disputas de guarda ou investigações criminais
  • Violência psicológica: caracterizada por humilhações, ameaças, isolamento, manipulação e controle coercitivo, nem sempre deixa marcas visíveis, o que torna a avaliação psicológica ainda mais relevante
  • Alienação parental: reconhecida como forma de violência psicológica contra a criança, envolve a instrumentalização do filho em conflitos entre genitores
  • Violência institucional: ocorre dentro de sistemas como escolas, hospitais ou instituições de acolhimento
  • Violência sexual: demanda protocolos específicos de avaliação, com atenção à revitimização durante o processo judicial

Em todos esses casos, o psicólogo jurídico contribui para transformar sofrimento em linguagem técnica compreensível pelo sistema de justiça, sem perder a humanidade do processo.

O que a pesquisa científica revela sobre violência psicológica?

A violência psicológica é, entre todas as formas de violência, uma das mais difíceis de identificar e documentar. Pesquisas na área mostram que seus efeitos podem ser tão graves quanto os da violência física, mas sua natureza invisível frequentemente retarda o reconhecimento tanto pelas vítimas quanto pelo sistema de justiça.

Estudos na área de psicologia clínica e forense indicam que a exposição prolongada à violência psicológica está associada a quadros como depressão, transtorno de estresse pós-traumático, ansiedade generalizada, baixa autoestima e dificuldades nos vínculos relacionais. Em crianças, os impactos incluem prejuízos no desenvolvimento cognitivo, emocional e social.

A pesquisa científica também evidencia que a violência psicológica raramente ocorre de forma isolada. Ela frequentemente precede ou acompanha outras formas de violência, funcionando como um mecanismo de controle e dominação sobre a vítima.

Do ponto de vista forense, um aspecto relevante é a chamada coerção coercitiva, padrão de comportamento que combina isolamento, monitoramento, degradação e privação. Esse conceito tem ganhado espaço tanto nas pesquisas quanto nas legislações de vários países, influenciando a forma como tribunais avaliam casos de violência doméstica.

Para quem atua com laudos e pareceres em situações que envolvem depressão decorrente de violência, a fundamentação científica é indispensável. Um parecer psicológico sobre depressão bem elaborado pode ser determinante em processos que envolvem danos emocionais comprovados.

Como o psicólogo jurídico identifica e avalia situações de violência?

A identificação e avaliação de situações de violência pelo psicólogo jurídico segue um processo técnico estruturado, que começa muito antes de qualquer conclusão.

As etapas geralmente envolvem:

  1. Análise documental: leitura dos autos processuais, boletins de ocorrência, prontuários médicos e outros documentos relevantes
  2. Entrevista psicológica: conduzida com a vítima, o acusado ou ambos, a depender do tipo de avaliação solicitada
  3. Aplicação de instrumentos: testes e escalas validadas para rastrear traumas, avaliar funcionamento psicológico e verificar coerência de relatos
  4. Análise comportamental: observação de padrões de comportamento, linguagem não verbal e consistência narrativa
  5. Síntese técnica: integração de todas as informações em um documento formal, com resposta objetiva aos quesitos apresentados pelo juízo ou pelas partes

Um aspecto central dessa avaliação é a distinção entre o que foi vivenciado e o que pode ter sido influenciado por terceiros, especialmente em casos envolvendo crianças. O psicólogo forense precisa avaliar a espontaneidade e a consistência do relato com base em critérios técnicos, não em impressões subjetivas.

Para entender como esse processo se aplica na prática, vale conhecer exemplos concretos de psicologia aplicada ao Direito em casos reais.

Qual é o papel do psicólogo jurídico no enfrentamento da violência doméstica?

O enfrentamento da violência doméstica exige uma rede de proteção que vai além do sistema policial e judicial. O psicólogo jurídico ocupa um lugar estratégico nessa rede, atuando tanto no suporte às vítimas quanto na produção de conhecimento técnico para o Judiciário.

Sua atuação não se limita a avaliar danos. Ela envolve compreender as dinâmicas de poder presentes na relação violenta, mapear os fatores de risco para novas ocorrências e identificar necessidades específicas de proteção que os instrumentos legais precisam considerar.

A Lei Maria da Penha, ao prever equipes multidisciplinares nos Juizados de Violência Doméstica e Familiar, reconheceu formalmente que o enfrentamento eficaz da violência não é tarefa exclusiva dos operadores do Direito. A psicologia, ao lado do serviço social, compõe o núcleo técnico que oferece ao juiz informações que os autos sozinhos não conseguem fornecer.

Esse trabalho é especialmente delicado porque as vítimas de violência doméstica frequentemente apresentam comportamentos que podem parecer contraditórios para quem não conhece as dinâmicas do abuso, como retratação do boletim de ocorrência, defesa do agressor ou minimização das agressões. O psicólogo jurídico contribui para que o sistema de justiça interprete esses comportamentos com a profundidade técnica necessária.

Como ocorre o atendimento às vítimas de violência doméstica no contexto jurídico?

O atendimento a vítimas de violência doméstica no contexto jurídico diferencia-se do atendimento clínico por seu caráter avaliativo e sua vinculação ao processo legal. O objetivo não é oferecer terapia, mas compreender a experiência da vítima, documentar seus impactos e subsidiar decisões judiciais.

Esse atendimento costuma ocorrer em:

  • Equipes psicossociais dos Juizados de Violência Doméstica
  • Centros de Referência de Atendimento à Mulher (CRAMs)
  • Delegacias especializadas, com apoio técnico de psicólogos
  • Perícias solicitadas pelo juízo ou pelas partes processuais

Durante o processo, o psicólogo pode ser chamado a realizar uma avaliação de risco, que considera fatores como histórico de violência, uso de armas, ameaças de morte, dependência econômica da vítima e presença de crianças no ambiente doméstico. Essa avaliação orienta a concessão de medidas protetivas de urgência.

É fundamental que o profissional conduza o atendimento com atenção à revitimização, evitando abordagens que reproduzam o trauma ou que coloquem a vítima em posição de justificar o que sofreu. A escuta qualificada é, ao mesmo tempo, instrumento técnico e prática ética.

De que forma o psicólogo atua junto ao sistema de justiça nesses casos?

A atuação do psicólogo junto ao sistema de justiça em casos de violência doméstica pode ocorrer em diferentes formatos, dependendo de quem solicita o trabalho e qual é a demanda específica.

Como perito do juízo, o psicólogo é nomeado pelo juiz para realizar avaliação imparcial das partes. Seu laudo integra os autos e serve como elemento de prova para a decisão judicial.

Como assistente técnico, o psicólogo é contratado por uma das partes processuais, com objetivo de acompanhar a perícia oficial, elaborar quesitos técnicos e, se necessário, apresentar um parecer divergente fundamentado. Essa figura é especialmente relevante quando há suspeita de avaliação inadequada ou quando a parte precisa de suporte técnico especializado para sua defesa.

Além dessas funções, o psicólogo jurídico pode também contribuir com o Ministério Público em demandas de psicologia jurídica, fornecendo subsídios técnicos para a atuação do promotor em casos que envolvem violência e vulnerabilidade.

Em todas essas situações, a qualidade do trabalho depende de formação específica, conhecimento da legislação pertinente e capacidade de traduzir conceitos psicológicos complexos em linguagem acessível ao sistema jurídico.

Como a psicologia jurídica contribui na prevenção da violência intrafamiliar?

A contribuição da psicologia jurídica para a prevenção da violência intrafamiliar vai além da resposta ao conflito já instaurado. Ela atua também na identificação precoce de fatores de risco, no fortalecimento de vínculos familiares saudáveis e na orientação de intervenções que possam interromper ciclos de violência antes que se cronifiquem.

Do ponto de vista preventivo, o psicólogo jurídico pode atuar em programas de parentalidade positiva, grupos reflexivos para homens autores de violência, mediação familiar e orientação em situações de conflito conjugal com potencial de escalada para a violência.

Em contextos judiciais, a prevenção da violência intrafamiliar passa também pela qualidade das decisões sobre guarda e convivência. Processos mal conduzidos, com disputas acirradas e ausência de suporte técnico especializado, podem agravar o sofrimento de crianças e adultos envolvidos. A presença do psicólogo jurídico ajuda a identificar dinâmicas relacionais disfuncionais e a propor arranjos que protejam todos os envolvidos.

A interface entre violência intrafamiliar e disputas de guarda é frequente e delicada. Casos que envolvem acusações de abuso, alienação parental ou negligência exigem avaliação técnica cuidadosa para distinguir o que é conflito parental do que é efetivamente situação de risco para a criança.

Quais intervenções preventivas são realizadas pelo psicólogo jurídico?

As intervenções preventivas do psicólogo jurídico são diversas e se adaptam ao contexto institucional em que ele atua. Algumas das mais relevantes incluem:

  • Grupos reflexivos para autores de violência: intervenção que busca responsabilização e mudança de padrões de comportamento, frequentemente vinculada a medidas judiciais
  • Orientação parental: trabalho com genitores em conflito para que o impacto sobre os filhos seja minimizado, especialmente em processos de separação litigiosa
  • Mediação familiar: quando cabível e segura, a mediação permite que as partes construam acordos sem acirrar o conflito pelo caminho judicial
  • Avaliação e encaminhamento: identificação de situações de risco antes que evoluam para violência declarada, com orientação sobre recursos de proteção disponíveis
  • Capacitação de profissionais: psicólogos jurídicos também atuam na formação de outros profissionais que lidam com violência, como assistentes sociais, educadores e operadores do Direito

Em disputas que envolvem filhos, a fixação de residência em guarda compartilhada é um dos pontos que mais exige avaliação técnica cuidadosa, pois envolve diretamente a proteção emocional das crianças.

Como a avaliação psicológica forense auxilia na proteção de vítimas?

A avaliação psicológica forense é um dos instrumentos mais poderosos de proteção de vítimas dentro do sistema de justiça. Ela transforma sofrimento subjetivo em evidência técnica, oferecendo ao juiz informações que não poderiam ser obtidas por outros meios processuais.

No caso de crianças vítimas de violência, por exemplo, a avaliação forense permite identificar indicadores de trauma, avaliar a credibilidade do relato sem expor a criança à dinâmica adversarial de um interrogatório, e oferecer recomendações sobre a modalidade de convivência mais segura com cada genitor.

Para vítimas adultas de violência doméstica, a avaliação pode documentar os impactos psicológicos sofridos, embasar pedidos de medidas protetivas, subsidiar ações de indenização por danos morais e contribuir para decisões sobre guarda de filhos em comum com o agressor.

Um exemplo de parecer psicológico infantil bem estruturado ilustra como essa documentação técnica pode ser decisiva para a proteção de crianças em processos judiciais complexos. A qualidade do documento reflete diretamente a qualidade da proteção oferecida.

Para garantir esse padrão de qualidade, o profissional precisa dominar tanto os instrumentos de avaliação quanto as normas técnicas que regulam a elaboração de relatórios de avaliação psicológica.

O que dizem os principais estudos sobre violência e psicologia jurídica?

A produção científica sobre violência e psicologia jurídica tem crescido de forma expressiva nas últimas décadas, tanto no Brasil quanto internacionalmente. Esse crescimento reflete o reconhecimento da área como campo legítimo de pesquisa e prática profissional, com metodologias próprias e contribuições específicas para o sistema de justiça.

Os estudos mais relevantes concentram-se em temas como avaliação de risco em violência doméstica, critérios para análise de credibilidade de relatos, impacto do trauma no desenvolvimento infantil, eficácia de intervenções com autores de violência e instrumentos forenses validados para uso em contexto jurídico.

No Brasil, a pesquisa na área ainda enfrenta desafios relacionados à validação de instrumentos para a população brasileira, ao acesso de pesquisadores ao sistema de justiça e à articulação entre produção acadêmica e prática forense. Ainda assim, centros universitários, programas de pós-graduação em psicologia e grupos de pesquisa dedicados ao tema têm produzido contribuições relevantes.

A integração entre pesquisa e prática é uma das marcas das áreas mais consolidadas da psicologia jurídica internacional, como os países anglo-saxônicos, onde o campo tem tradição mais longa. Importar esse modelo, adaptando-o à realidade jurídica e cultural brasileira, é um dos desafios e oportunidades do campo no país.

Quais são as referências acadêmicas mais relevantes na área?

O campo da psicologia jurídica aplicada ao estudo da violência conta com algumas referências consolidadas que orientam tanto a formação quanto a prática profissional.

No contexto brasileiro, destacam-se:

  • Liana Fortunato Costa: referência em psicologia jurídica e atendimento a famílias em contexto judicial
  • Hélio Bicudo e colaboradores do IBCCRIM: contribuições sobre psicologia e sistema penal
  • Publicações do CFP: as referências técnicas publicadas pelo Conselho Federal de Psicologia são documentos norteadores essenciais, especialmente sobre avaliação psicológica, violência doméstica e depoimento especial
  • Denise Diniz e pesquisadores do campo da saúde coletiva: estudos sobre violência de gênero com implicações para a prática forense

No cenário internacional, autores como Lori Fries, Evan Stark (com o conceito de coerção coercitiva), Mary Ainsworth e John Bowlby (pela teoria do apego, fundamental para casos de guarda e violência intrafamiliar) e o grupo de pesquisadores ligados ao protocolo NICHD para entrevistas forenses com crianças são referências obrigatórias.

Além disso, periódicos como o Journal of Forensic Psychology, a Psicologia: Ciência e Profissão e a Revista Brasileira de Políticas Públicas publicam regularmente estudos relevantes para quem atua na área.

Quais lacunas ainda existem nas pesquisas sobre o tema?

Apesar do avanço, o campo ainda apresenta lacunas que limitam a qualidade da prática forense e a eficácia das intervenções no sistema de justiça.

Entre as principais lacunas identificadas por pesquisadores da área:

  • Validação de instrumentos: muitos protocolos utilizados no Brasil foram desenvolvidos em outros contextos culturais e ainda carecem de validação adequada para a população brasileira
  • Pesquisas longitudinais: faltam estudos que acompanhem vítimas ao longo do tempo para avaliar os efeitos das intervenções jurídicas e psicológicas sobre sua recuperação
  • Diversidade amostral: muitas pesquisas focam em populações específicas, deixando de fora grupos como homens vítimas de violência doméstica, populações LGBTQIA+, pessoas com deficiência e comunidades indígenas
  • Avaliação de autores de violência: ainda há escassez de instrumentos validados e protocolos consistentes para avaliação de pessoas acusadas de violência em contexto forense
  • Interface com o Direito: a comunicação entre psicólogos e operadores jurídicos ainda é inconsistente, o que reduz o impacto das avaliações psicológicas nas decisões judiciais

Identificar essas lacunas é o primeiro passo para superá-las. Para profissionais em formação, elas representam oportunidades de pesquisa e contribuição real para o desenvolvimento do campo.

Como se tornar psicólogo jurídico especializado em violência?

Tornar-se psicólogo jurídico especializado em violência exige um percurso formativo que vai além da graduação em psicologia. O profissional precisa combinar conhecimento técnico especializado, familiaridade com o sistema jurídico e experiência prática em contextos forenses.

A graduação oferece a base, mas raramente prepara o psicólogo para as demandas específicas da atuação jurídica. É na pós-graduação, nas formações complementares e na prática supervisionada que esse preparo se consolida.

A especialização na área de violência, especificamente, exige atenção a conteúdos como dinâmicas de abuso, avaliação de trauma, entrevista forense com crianças e adultos, critérios de avaliação de credibilidade, elaboração de documentos psicológicos para o Judiciário e legislação aplicável.

Além da formação técnica, o psicólogo que deseja atuar nessa área precisa desenvolver capacidade de trabalhar sob pressão, tolerância à ambiguidade e habilidade para comunicar conclusões complexas de forma clara e objetiva em laudos, pareceres e, quando necessário, em audiências.

Quais formações e especializações são recomendadas?

O caminho formativo para a psicologia jurídica com foco em violência costuma incluir:

  • Especialização em Psicologia Jurídica ou Forense: cursos lato sensu que oferecem base teórica e prática sobre avaliação forense, documentos psicológicos e atuação no sistema de justiça
  • Formação em entrevista forense: especialmente importante para quem trabalha com crianças vítimas de violência, com destaque para o protocolo NICHD e o depoimento especial previsto na Lei nº 13.431/2017
  • Formação em avaliação psicológica: o CFP exige habilitação específica para uso de testes psicológicos, e o psicólogo forense precisa dominar os instrumentos disponíveis e aprovados
  • Cursos sobre violência doméstica e de gênero: fundamentais para a atuação em varas especializadas e junto a redes de proteção
  • Mestrado ou doutorado: para quem deseja contribuir com a pesquisa na área e ocupar posições de maior complexidade técnica

A experiência prática, seja em estágios supervisionados, seja como assistente técnico em processos reais, é insubstituível. O contato direto com os autos, com as partes e com as dinâmicas do sistema jurídico transforma conhecimento teórico em competência forense.

Para quem deseja entender o custo de contratar um profissional especializado nessa área, informações sobre quanto custa um parecer psicológico ajudam a dimensionar o investimento necessário.

O CFP oferece diretrizes específicas para essa atuação?

Sim. O Conselho Federal de Psicologia publicou uma série de documentos normativos e orientativos que regulamentam e guiam a atuação do psicólogo em contextos jurídicos, com atenção específica a situações de violência.

Entre os principais documentos do CFP relevantes para essa área:

  • Resolução CFP nº 06/2019: institui regras para elaboração de documentos escritos produzidos pelo psicólogo no exercício profissional, incluindo laudos e pareceres em contexto forense
  • Referências técnicas para atuação de psicólogas(os) em Programas de Atenção à Mulher em situação de Violência: documento que orienta a prática em contextos de violência de gênero
  • Nota técnica sobre depoimento especial: orientações sobre a participação do psicólogo no protocolo de oitiva de crianças e adolescentes vítimas de violência
  • Referências técnicas para atuação em Varas de Família: aborda a atuação psicológica em disputas que envolvem guarda, convivência e situações de violência intrafamiliar

Essas diretrizes não substituem a formação especializada, mas definem o piso ético e técnico a partir do qual todo psicólogo jurídico deve operar. O não cumprimento dessas normas expõe o profissional a processos ético-disciplinares e compromete a validade dos documentos produzidos.

Em casos que envolvem guarda disputada com histórico de violência, como situações de guarda compartilhada litigiosa ou guarda compartilhada negada, as diretrizes do CFP são referência obrigatória para qualquer avaliação técnica que pretenda ter valor jurídico.

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